Jornalismo de boteco
Prato tradicional dos glutões trilionários de big techs
Um dos âncoras do telejornal local se despede ao término da edição e, sorrindo, com o dedo em riste, convida para o dia seguinte: Espero você; Não foge não! Outro âncora anuncia o pepino (sic) na avenida fulano de tal, referindo-se a reportagem sobre um acidente de trânsito. Quatro ou cinco apresentadores, que se revezam em duplas e trios às sessões diárias, às vezes servem pães-de-queijo, convidam para o cafezinho, dão tapinhas nas costas ou se abraçam ao vivo.
É questão de tempo ouvir expressões como E aí, véi?; Cara, o dia em BH tá uma merda!… Ou ver o âncora trocar sapatos por chinelos e ternos por regatas, além de coçar o sovaco e tomar café e água em garrafas térmicas… Exatamente como no YouTube.
Esse debacle eclode na primeira década do século. Em Brasília, parlamentáveis e ilustríssimos do STF decretam o fim da exigência do diploma para o exercício do jornalismo. Hum… Logo o jornalismo, que tem por princípio informar sobre desvios de agentes políticos, cá incluídos os próprios parlamentáveis, entende?
Essa depreciação pública do ofício incentiva ao surgimento de escolas livres do rigor normativo original e vocacionadas às adequações de interesse dos governantes, em prejuízo da formação recomendada ao exercício da profissão — fruto de estudos intensos desde bem antes do vestibular e por ao menos quatro anos de campus. No caso do humilíssimo articulista que vos fala, a graduação decorre da inspiração no célebre Bar do Quincas e do enfrentamento de 25 candidatos por vaga na UFMG e 14 na PUC, em 1983. E adivinhem, amadas leitoras e cordiais leitores, qual é o curso mais procurado naquela época: Ciências da Computação.
O ataque aos jornalistas coincide com a gênese do Google no Brasil, entende?
O vislumbre da mão-de-obra barateada revigora os barões da mídia e seus diretores baba-ovos à caça de grana e poder. Mas, incapazes de ver um palmo à frente, eles se imaginam concorrentes da web. Logo tratam de informatizar as redações e, fascinados pelas facilidades tecnológicas, passam a exaltar imagens e a introduzir infográficos (sic), assim subestimando o espaço textual. Desde então, em vão, advirto: Jornais são para quem gosta de ler, e não para quem sabe ler.
Ora observem, queridas leitoras e gentis leitores, a influência dos poucos veículos mundo afora que mantêm reportagens e artigos com profundidade e qualidade redacional, sobrevivendo a redes sociais que engolem jornalões como croquetes expostos em saletas da internet.
As versões televisivas do jornalismo tentam equilibrar as despesas com demissões. A audiência despenca em canais como o inconfiável GloboNews. A desqualificação profissional legalizada e a concorrência míope com Google e companhia determinam o declínio a partir de bases regionais onde se estabelece certo jornalismo comunitário, incumbido de: recolher e divulgar reclamações sobre serviços públicos, calendários de vacinação, pagamentos de IPTU e IPVA, clima e monitoramento do trânsito; em tempos de eleições, agenda dos candidatos e prazos à regularização do título de eleitor; em dias de carnaval, vivas ao comércio e às iniciativas da prefeitura… Noves fora a polícia e o futebol.
O problema é quando o modelo editorial transforma o jornalismo, antes tido como quarto poder, em braço do poder; em espécie de assessoria de imprensa estatal que se afasta do ideário crítico.
Oh, Céus! Trata-se de fugir do primordial para servir ao governante da ocasião; de focalizar consumidores e influenciar eleitores, em vez de contribuir para o aprimoramento da informação e a consequente evolução cultural dos espectadores.
A internet tem de tudo para todos: de Chico Buarque ao MC Fodas e à gata do rodeio — o tipo que a turma dos Marinho ora joga nos braços da galera (sic).
Por essas e outras, a imprensa não é mais o filé a ser degustado: é tira-gosto de boteco no vasto cardápio de insaciáveis e trilionárias big techs. Resta imitar youtubers e resumir-se à proximidade interesseira com o povão. Seja bem-vinda, eleitora. Chega mais, parceiro. Você não é visita, véi. Porra! Você é demais, cara! E não foge não, tá legal?
(Ilustrado por RMEDITOR com imagens Canva)



Dia desses um âncora desses disse que o problema com o controle aéreo em Campinas havia impactado (sic) não sei quantos voos em Confins. Temi por uma tragédia.