O lado escuro da lua
Jornalismo mingua, cada vez mais perdido no espaço
Concomitantemente à luz da crítica que se afrouxela, o jornalismo agoniza ao estrangular a própria goela.
A frase haicaísta da cientista política Tia Bibida se aplica à tacanhez orbital entre muitos editores, redatores e repórteres; à limitação que os impede de transportar a musa dos poetas de outrora e a música do Pink Floyd na mesma espaçonave que leva a sanha comercial colonizadora. A esses interessa exaltar certa tecnologia inoportuna em conjuntura de caos econômico, e pouco importa que consuma fortunas suficientes para matar a fome do mundo. O circo em torno da Artemis contribui para agravar o cenário de miséria e não tem como amenizar a pobreza nos próximos cinquenta anos. Se é que vai sobrar alguém até 2076.
Ao trilhão da guerra, acrescente cem bilhões de dólares — perdidos no espaço para alimentar os sonhos de meia dúzia de trilionários lunáticos que pouco se lixam para milhões de esfomeados e desalojados.
Noves fora o desprezo pelos irmãos (sic), eis o mix de hipocrisia, bajulice e preconceito: se referem ao regime (sic) do Irã, país guardião de cultura milenar, respeitável e distinta da ocidental. Repórteres bem embasados e experientes (em teoria), os correspondentes ignoram que regime é o de Trump, ao realçar a arrogância, a prepotência e a ignorância de quem agride e considera os herdeiros da Pérsia como amontoado de neandertais. Aliás, no Estadão de semanas atrás, leiam “que ninguém vai sentir falta do Irã”.
Aguardo alguém afirmar que o Irã tem o direito de se defender (diria Netanyahu ao justificar a barbárie em Gaza). Mas o que destacam, diuturnamente, são os ataques estadunidenses e israelenses, sempre devastadores, graças à formidável tecnologia bélica do país mais poderoso da galáxia, enquanto os mísseis inimigos são interceptados pelo Domo de Ferro. O que cai sobre os civis de Tel Aviv são meros fragmentos de armas destruídas no ar…
A sutil e cruel propaganda de guerra. A insensibilidade diante do sofrimento coletivo. É como nesta chamada da CNN ao anunciar seu correspondente in loco:
“População de Teerã está assustada com os bombardeios”. Ora, bolas… Qualquer um de nós, sarizumanus, se assusta com bombardeios, inclusive a mãe do redator.
Será frieza? Incompetência? A maneira sutil de glorificar o poderio bélico que há de levar — após a próxima trégua e com a graça de Deus — o Irã à rendição? As três opções estão corretas.
E o que é ruim, por consequência do declínio moral e técnico da imprensa tradicional, piora ainda mais ao se somar à quantidade absurda de fake news ruminadas em redes sociais em que a grande mídia também fixa seus tentáculos. A baixeza se alastra com rapidez interestelar inédita neste período pré-eleitoral. Humm… Trump é o grande responsável pela alta do combustível em todo o mundo. É dele que vêm as sanções que destroem o PIB de dezenas de países e a vida de pobres como os cubanos. É ele quem, sem argumentos plausíveis, ataca o Irã, mata adolescentes em escola e cultiva a tragédia a partir do preço do petróleo. Aqui, no Brasil, sentimos os efeitos do aumento porque tudo, inclusive a comida e os remédios, depende de combustível para o transporte. E a culpa é do Lula.
É curiosa a notícia de que Trump intenta aprovar orçamento de um trilhão de dólares para gastos com a Defesa. Defesa? Mas… Não é ele quem acaba de transformar o Departamento de Defesa em Departamento de Guerra? Ou pretende se prevenir de ataques dos incas venusianos?
Questionamentos assim, amadas leitoras e honoráveis leitores, não constam do noticiário. E é por essas e outras que, longe da poesia musical do Pink Floyd, o jornalismo definha no cosmo das superficialidades, no lado escuro da lua.
(Ilustrado por RMEDITOR com imagens Canva)


